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Depressão além da tristeza: compreender o sofrimento também faz parte do cuidado

Perda de interesse, cansaço, isolamento, culpa e sensação de vazio podem fazer parte de um quadro depressivo. Em minicurso sobre o tema, a psicóloga e professora Lao Bertoldo abordou os sinais da depressão, a compreensão psicanalítica do sofrimento e as possibilidades de manejo pelo gesto analítico.

Há dias em que levantar da cama parece exigir um esforço enorme. O encontro com outras pessoas deixa de interessar. O trabalho perde o sentido. Aquilo que antes proporcionava prazer já não mobiliza da mesma forma. E, em alguns casos, surge uma pergunta difícil de responder: “Por que estou assim se aparentemente está tudo bem?” A depressão não se resume à tristeza. Trata-se de uma condição que pode modificar profundamente a relação da pessoa consigo mesma, com os outros e com a própria vida.

Foi a partir dessa compreensão que o minicurso sobre depressão percorreu três caminhos complementares: como reconhecer seus principais sinais e sintomas; como a psicanálise pode contribuir para compreender o sofrimento depressivo; e quais possibilidades de cuidado podem ser construídas a partir do gesto analítico.

Nem toda tristeza é depressão — e nem toda depressão aparece como tristeza

Sentir tristeza diante de perdas, separações e frustrações faz parte da experiência humana. O que chama atenção na depressão é a intensidade, a persistência e o impacto que determinadas manifestações passam a exercer sobre diferentes dimensões da vida. Além do humor deprimido, podem aparecer perda de interesse ou prazer, alterações no sono e no apetite, fadiga, redução da energia, dificuldades de concentração, sentimentos intensos de culpa ou desvalia, retraimento social e desesperança. Mas há um detalhe importante: nem sempre a pessoa deprimida se descreve como triste. Algumas falam em vazio, apatia ou ausência de prazer.

Sinais que merecem atenção

  • Perda do interesse ou prazer em atividades anteriormente significativas.
  • Tristeza persistente, vazio ou irritabilidade.
  • Alterações importantes no sono ou no apetite.
  • Cansaço e perda de energia.
  • Dificuldade para pensar, concentrar-se ou tomar decisões.
  • Isolamento e redução do interesse pelas relações.
  • Sentimentos intensos de culpa, inutilidade ou desvalorização.
  • Desesperança em relação ao futuro.
  • Pensamentos recorrentes sobre morte ou suicídio.

A presença de pensamentos de morte ou de ideação suicida exige atenção imediata e avaliação profissional.

Depois do diagnóstico, uma pergunta: o que aconteceu com esse sujeito?

A identificação dos sintomas é indispensável para a avaliação clínica. Mas, para a psicanálise, existe ainda outra dimensão que também precisa ser considerada. Se o diagnóstico pergunta “quais sintomas estão presentes?”, a escuta analítica acrescenta outras questões: “Como essa pessoa chegou até aqui? O que perdeu? O que mudou em sua relação consigo mesma? O que aconteceu com seus investimentos, seus vínculos e seus desejos?”

Freud e as perdas que não conseguimos nomear

Uma das referências clássicas para pensar essa questão está em Luto e Melancolia, texto no qual Sigmund Freud investiga as relações entre perda e sofrimento melancólico. Uma perda não precisa significar apenas a morte ou o afastamento de alguém. Podemos perder uma relação, uma posição profissional, um projeto de futuro, um lugar dentro da família, um ideal ou até determinada imagem que construímos sobre quem acreditávamos ser.

Quando a crítica deixa de vir de fora

Em muitos quadros depressivos, a autocrítica torna-se intensa. Frases como “não sou bom o suficiente”, “sou um fracasso” ou “não consigo fazer nada direito” revelam o peso da culpa e da desvalorização. Sob a perspectiva psicanalítica, torna-se importante investigar não apenas a tristeza, mas também a culpa, os ideais e as formas pelas quais a agressividade pode retornar contra o próprio sujeito.

“Você precisa reagir” nem sempre ajuda

Diante da depressão, familiares e amigos frequentemente recorrem a frases como “pense positivo” ou “você precisa reagir”. Embora bem-intencionadas, elas podem aumentar a culpa. O gesto analítico parte de outra posição: antes de exigir transformação, é necessário construir condições para que aquilo que está sendo vivido possa ser escutado.

O que significa escutar na clínica?

A escuta analítica acompanha palavras, silêncios, repetições, perdas, vínculos e conflitos. Em determinado momento, uma pergunta pode abrir novas associações; em outro, sustentar o silêncio também pode ser parte do cuidado.

Respeitar o tempo do sujeito também é cuidado

A clínica da depressão exige reconhecer que cada pessoa possui um ritmo próprio de elaboração. Isso não significa minimizar a gravidade do quadro. Casos moderados ou graves podem demandar uma rede interdisciplinar, com psicoterapia, avaliação psiquiátrica, apoio familiar e tratamento medicamentoso quando indicado.

Há um sujeito para além do diagnóstico

O diagnóstico é importante, mas não esgota aquilo que alguém é. Existe uma história, uma forma singular de amar, perder, desejar e construir vínculos. É justamente essa singularidade que a escuta clínica procura alcançar. Talvez essa seja uma das maiores contribuições do gesto analítico diante da depressão: não apressar uma resposta onde ainda existe sofrimento a ser escutado.

Lao Bertoldo
Psicóloga | Especialista em Psicologia Clínica | Mestre em Educação | Doutora em Psicologia Clínica | Docente no Ensino Superior e Pós-Graduação

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