A compreensão de que o gênero é uma construção social, e não um destino biológico imutável, é um dos pilares fundamentais para entendermos as dinâmicas de poder e violência em nossa sociedade. Como profissionais da psicologia, nosso olhar deve estar atento a como essa construção molda a subjetividade e, consequentemente, as relações interpessoais.
A imagem do que é “ser homem” ou “ser mulher” sofre forte influência do recorte cultural e histórico em que está inserida. Se olharmos para a Antiguidade, o uso de túnicas e saias por romanos e egípcios era a norma da virilidade. Ainda hoje, os kilts escoceses são símbolos de orgulho e tradição.
Entretanto, ao analisarmos a cultura brasileira contemporânea, percebemos delimitações rígidas. O uso de cosméticos, a escolha de cores e vestimentas, e até a forma de se sentar ou falar são rigorosamente vigiados. Essas normas não são apenas estéticas; elas definem comportamentos esperados, estimulados e aceitos para cada gênero.
Essa “cartilha” do gênero é transmitida de geração em geração: aprendida na primeira infância, consolidada na adolescência e, frequentemente, perpetuada na vida adulta sem questionamentos. O sofrimento costuma ser o único momento em que a dúvida emerge.
Para o gênero masculino, o ensinamento tradicional é o da supressão do afeto e da vulnerabilidade. O homem aprende que o sofrimento não deve ser sentido ou expressado através do choro por exemplo, mas sim externalizado sob a forma de agressividade. Surge aqui o que chamamos de masculinidade hegemônica ou tóxica: um modelo que exige que o homem seja impositivo e dominante para ser validado.
Quando a cultura ensina que homens devem ser agressivos e mulheres devem ser frágeis, sensíveis e subservientes, cria-se um terreno fértil para a injustiça. A violência contra a mulher não é um fato isolado, mas o ápice de um sistema que valida as ideias de posse, controle e hierarquia entre gêneros.
Nesse cenário, a cultura e o aprendizado social deixam de ser apenas contextos e tornam-se justificativas perigosas para comportamentos abusivos e criminosos.
Como podem os psicólogos e profissionais de saúde intervir nessas questões?
É imperativo que não sejamos coniventes com nenhum tipo de violência. Se identificamos que fatores culturais estão direcionando um indivíduo para comportamentos de risco ou criminosos, nossa função ética é intervir para prevenir o dano.
O trabalho com o público jovem é preventivo por excelência. Cabe ao profissional orientar pais e cuidadores a evitarem que conceitos rígidos de gênero se tornem validadores de injustiças, abusos ou violências. Educar para a empatia e para a pluralidade de expressões é um ato de saúde mental.
No setting terapêutico, devemos oferecer ao homem um espaço seguro para que ele possa entrar em contato com suas emoções sem o filtro da agressividade. Desconstruir o “ser forte a qualquer custo” é, também, uma forma de reduzir a violência de gênero. A cultura nos molda, mas a consciência nos liberta. Como psicólogos, nosso papel é colaborar para que o aprendizado social seja um caminho para a convivência ética, e nunca um escudo para a violência.
Denise Walder Ferolla – CRP/PR 19.605






