Todos os cursos por apenas R$ 25,00, oferta exclusiva de lançamento da plataforma.

A Construção Social do Masculino e o Enfrentamento da Violência de Gênero

A compreensão de que o gênero é uma construção social, e não um destino biológico imutável, é um dos pilares fundamentais para entendermos as dinâmicas de poder e violência em nossa sociedade. Como profissionais da psicologia, nosso olhar deve estar atento a como essa construção molda a subjetividade e, consequentemente, as relações interpessoais.

A imagem do que é “ser homem” ou “ser mulher” sofre forte influência do recorte cultural e histórico em que está inserida. Se olharmos para a Antiguidade, o uso de túnicas e saias por romanos e egípcios era a norma da virilidade. Ainda hoje, os kilts escoceses são símbolos de orgulho e tradição.

Entretanto, ao analisarmos a cultura brasileira contemporânea, percebemos delimitações rígidas. O uso de cosméticos, a escolha de cores e vestimentas, e até a forma de se sentar ou falar são rigorosamente vigiados. Essas normas não são apenas estéticas; elas definem comportamentos esperados, estimulados e aceitos para cada gênero.

Essa “cartilha” do gênero é transmitida de geração em geração: aprendida na primeira infância, consolidada na adolescência e, frequentemente, perpetuada na vida adulta sem questionamentos. O sofrimento costuma ser o único momento em que a dúvida emerge.

Para o gênero masculino, o ensinamento tradicional é o da supressão do afeto e da vulnerabilidade. O homem aprende que o sofrimento não deve ser sentido ou expressado através do choro por exemplo, mas sim externalizado sob a forma de agressividade. Surge aqui o que chamamos de masculinidade hegemônica ou tóxica: um modelo que exige que o homem seja impositivo e dominante para ser validado.

Quando a cultura ensina que homens devem ser agressivos e mulheres devem ser frágeis, sensíveis e subservientes, cria-se um terreno fértil para a injustiça. A violência contra a mulher não é um fato isolado, mas o ápice de um sistema que valida as ideias de posse, controle e hierarquia entre gêneros.

Nesse cenário, a cultura e o aprendizado social deixam de ser apenas contextos e tornam-se justificativas perigosas para comportamentos abusivos e criminosos.

Como podem os psicólogos e profissionais de saúde intervir nessas questões?

É imperativo que não sejamos coniventes com nenhum tipo de violência. Se identificamos que fatores culturais estão direcionando um indivíduo para comportamentos de risco ou criminosos, nossa função ética é intervir para prevenir o dano.

O trabalho com o público jovem é preventivo por excelência. Cabe ao profissional orientar pais e cuidadores a evitarem que conceitos rígidos de gênero se tornem validadores de injustiças, abusos ou violências. Educar para a empatia e para a pluralidade de expressões é um ato de saúde mental.

No setting terapêutico, devemos oferecer ao homem um espaço seguro para que ele possa entrar em contato com suas emoções sem o filtro da agressividade. Desconstruir o “ser forte a qualquer custo” é, também, uma forma de reduzir a violência de gênero. A cultura nos molda, mas a consciência nos liberta. Como psicólogos, nosso papel é colaborar para que o aprendizado social seja um caminho para a convivência ética, e nunca um escudo para a violência.

Denise Walder Ferolla – CRP/PR 19.605

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

You May Also Like

Se, por um lado, vivemos na era da democratização da informação, por outro, enfrentamos uma onda alarmante de conteúdos falsos,...
Perda de interesse, cansaço, isolamento, culpa e sensação de vazio podem fazer parte de um quadro depressivo. Em minicurso sobre...
Mais uma vez chegamos ao mês de Outubro e, com ele, às campanhas do Outubro Rosa, um período dedicado à...