É comum recebermos no consultório pacientes com dificuldades nítidas em estabelecer limites saudáveis e, se essa limitação já gera impactos significativos na vida social e profissional, o desafio se torna ainda maior quando precisamos auxiliar o indivíduo a “cortar laços” com figuras que ele aprendeu que são intocáveis por serem parte da família.
A premissa cultural de que vínculo biológico significa manter uma boa relação incondicionalmente, gera intenso sofrimento em pacientes que já apresentam traços de passividade ou dificuldade de autoafirmação.
O aprendizado social de que figuras como pais, irmãos, avós ou tios são figuras sagradas, é uma barreira que muitas vezes submete o indivíduo a anos de abuso em um ambiente de silêncio e perpetuação da violência. Frequentemente, o parente tóxico estabelece uma dinâmica em que o sistema familiar gira em torno dele, inclusive acobertando e; ou, justificando seus comportamentos disfuncionais. Nesse cenário, todos acabam se adaptando aos desejos e necessidades do abusador, o que faz com que qualquer tentativa de rompimento (mesmo que tardia), gere julgamentos severos, culpa intensa e isolamento.
Como o psicólogo pode manejar este tipo de situação?
A Psicoeducação é ferramenta fundamental para ajudar o paciente a elucidar sentimentos incômodos, identificar distorções cognitivas e, principalmente; nomear e conceituar abusos e violências que antes eram ignorados como tal.
Suporte nasestratégias de comunicação assertiva e não violenta na fase de delimitação de limites e na imposição de barreiras comportamentais necessárias.
Incentivar a busca por relações saudáveis em outros contextos ajuda a mitigar a dependência emocional do ambiente tóxico e previne recaídas em padrões de submissão.
E se o paciente não quiser se afastar?
O papel da psicoterapia não é ditar o afastamento, mas sim compreender os motivos da permanência e avaliar os danos emocionais envolvidos. A princípio, os processos decisórios não devem ser terceirizados ao psicólogo, devemos respeitar a autonomia do cliente, exceto; em situações de risco iminente à segurança ou integridade física.
No entanto, é nosso dever ético alertar sobre os prejuízos psicológicos de se manter em uma relação disfuncional. Este deve ser um tópico constante nas discussões que permeiam a tomada de decisão do paciente, oferecendo-lhe a clareza necessária para que ele escolha o caminho que melhor preserve sua saúde mental.
Denise Walder Ferolla – CRP/PR 19.605






