A sobrecarga mental feminina é uma realidade complexa que exige dos profissionais muito mais do que a recomendação de estratégias tradicionais de auto priorização e autocuidado. Embora o termo tenha ganhado fôlego na mídia, sua profundidade sob o olhar clínico e social ainda carece de uma exploração mais robusta.
Diferente do trabalho doméstico físico, a sobrecarga mental refere-se à energia cognitiva e psíquica despendida para organizar, planejar e gerenciar a dinâmica familiar. É o ato de “arquitetar” a rotina antes mesmo que ela aconteça.
Historicamente, a mulher sempre foi validada no papel de cuidadora. Essa premissa se perpetua por gerações (inclusive entre as próprias mulheres) e nem mesmo a ascensão feminina no mercado de trabalho eliminou esse peso. O que vemos hoje é a consolidação da jornada dupla ou tripla; ou seja, enquanto o descanso pós-trabalho é socialmente legitimado para os homens, para as mulheres, ele é frequentemente substituído pela gestão do lar.
No consultório, é fundamental investigar se há sobrecarga, seja na execução ou no planejamento das tarefas:
A Execução: Refere-se ao comportamento visível (limpar, cozinhar, organizar).
O Planejamento: É o trabalho invisível. Envolve antecipar a falta de itens na despensa, gerenciar o calendário de vacinas, conciliar agendas médicas e garantir a logística da semana.
Embora muitos homens tenham aumentado sua participação nas tarefas, muitos ainda o fazem “sob demanda” (o famoso “é só me pedir que eu faço”). Isso mantém a mulher no cargo compulsório de “gerente”, o que gera estresse crônico e sofrimento psíquico.
Segundo o IBGE (2022), mulheres que trabalham fora dedicam, em média, 6,8 horas a mais por semana às atividades domésticas do que os homens. Este número foca na execução; se incluíssemos o tempo de planejamento, o abismo da desigualdade seria ainda maior.
Para nós, terapeutas, fica o questionamento: até que ponto o sintoma (ansiedade, depressão, Burnout) é uma patologia individual ou um reflexo direto dessa estrutura?
Se houver correlação, propor apenas técnicas de respiração, descompressão mental e, ou “momentos de lazer” pode ser insuficiente ou pior, pode se tornar mais um item de pressão na lista da paciente.
Para lidar de maneira efetiva com os impactos da sobrecarga mental em relação as demandas de terapia, o manejo deve ser profundo e incluir:
Psicoeducação: Ajudar a paciente a identificar, nomear e compreender as raízes culturais desse papel.
Estabelecimento de Limites: Treino de assertividade para uma delegação real não apenas de tarefas, mas de responsabilidades.
Sem endereçar o desequilíbrio do trabalho mental, as intervenções correm o risco de apenas “enxugar gelo”, enquanto a paciente segue exausta ao sustentar sozinha, a engrenagem do cotidiano.
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